Invisibilidade

September 15, 2017

                                                                                                    Foto: Maria José Jacinto

 

 

No balanço quase diário da vida, não fosse eu virginiana, revejo pessoas, eventos, encontros e desencontros, a contar lá de trás, do tempo da infância, da escola primária com o tecto de madeira que a professora furou uma vez com uma unha, a provar a prolongada infiltração, do recreio de terra batida, do grande pinheiro, da casa de banho gélida e sombria no exterior. As primeiras memórias são estas, a esconder algo bem mais sério, o relacionamento com os colegas. Lembro-me da “elite” de raparigas”onde eu não era aceite, e de, obviamente, não fazer parte do bando dos rapazes. Esta é a minha primeira memória de Invisibilidade.

 

Outras se seguiram, especialmente no liceu, onde uma rapariga da aldeira não tinha lugar entre os alunos da cidade, entre outros tantos episódios.

 

Podia ter sido dramático, não fosse a minha imensa curiosidade pelo que está para além, o que não conheço, mas já consigo cheirar, o que ainda não se manifestou mas está ali mesmo por detrás do véu do tempo, do que está para vir, ainda que os meus olhos já não o possam ver.

Na ciclididade das experiências a Vida levou-me mais tarde às portas da Consciência, e aí, nesse lugar mágico, aos poucos, o principio da Clareza manifestou-se. Apenas o princípio.

 

Tinha cerca de 33 anos quando me fizeram a primeira leitura da aura, e nesse momento senti pela primeira vez alguém a Olhar para mim, a Ver-me. Fiquei fascinada, e simultâneamente em choque, pois percebi que até ali, ninguém me tinha Visto.

 

Recentemente ao entrar em contacto com o pensamento sistémico de Bert Hellinger, a questão da Invisibilidade/Visibilidade tornou-se ainda mais clara. Nem a familia, nem os relacionamentos íntimos, nem os amigos de longa data, na maioria dos casos, ninguém se Vê.

 

Até à geração dos meus pais, sendo a sobrevivência uma prioridade, provavelmente havia pouco espaço para que as pessoas se Olhassem, se escutassem. A ideia era proteger, e isso implica muitas vezes, esconder.

Hoje estamos a iniciar a travessia de um novo território, onde desviar o olhar, não querer ver, será cada vez mais substituido pelo Olhar para dentro, e consequentemente Olhar e Ver o outro. E só estamos a destapar a pontinha do véu. Ainda reina o medo e a desconfiança. Está-nos entranhado nos ossos.

 

Há dias comprei uma carteira nova ao meu filho e imediatamente recomendei-lhe que a guardasse bem, caso contrario corria o risco de ser roubado. O mundo não é (apenas) uma utopia. Então o que fazer? Eu Vejo o meu filho, e observo a invisibilidade dele no meio dos colegas. Parece uma pescadinha de rabo na boca. Mas não é.

 

O processo de Consciência avança, ainda que lento.

 

Procuramos estar no controle e na zona de conforto o tempo todo, e ainda não sabemos parar para observar, questionar, procurar saber o que está para além do visível, do aparente, para além das camadas e camadas de peles falsas, de esquemas conscientes ou inconscientes de auto proteção. Ainda é um risco imenso mostrarmos as nossas vulnerabilidades, porque isso pode ser usado contra nós mais tarde, porque o mundo ainda está cheio de predadores. Todos nós, ninguém escapa. Somos todos menin@s com o peito cheio de ar mas com vontade de ir chorar para um canto, ou de encontrar conforto no colo da nossa mãe. Porque ao Amor também ninguém escapa.

 

Também conheço muita gente que Vê. Vê a verdadeira Urgência no processo de Consciência, Vê a Terra em agonia, o Lugar onde deveria começar a nossa re-ligação. Primeiro a Terra, os pés firmes, a Terra inteira, honrada, protegida, depois o infinito, a imensidão de crenças, tudo certo, todas a coabitar em harmonia. A integração das polaridades, sem deixar nada de fora. Vejo Sementes, pessoas-semente. Graças a tudo o que é mais Sagrado, eu Vejo-As.

 

Sei que não é possível apressar os mecanismos internos, e sei que eu faço parte de um grande mecanismo, e que Visível ou Invisível, terei apenas que fazer o meu melhor. Devo ter a sensibilidade para perceber quando o meu melhor não é suficiente, e devo dar outro passo ou tomar outro rumo sempre que necessário. E sobretudo, não parar de Sonhar.

 

MJJ

Setembro 2017

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